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10-09-2023
Shell entra em guerra com o Paraguai por pedágio em hidrovias
O bloqueio judicial de uma barcaça de combustível que não havia pago a tarifa reacendeu o conflito. A medida técnica da Administração Geral dos Portos para diminuir a tensão.
Por Antonio Rossi
Conflito internacional pela cobrança de pedágio na hidrovia
Conflito internacional pela cobrança de pedágio na hidrovia
O pedágio do rio Santa Fé, ao norte, que o governo argentino começou a cobrar em janeiro, provocou um novo conflito com o Paraguai e a petrolífera Shell. É em consequência da Administração Geral dos Portos (AGP) recorrer mais uma vez à Justiça e conseguir imobilizar uma embarcação carregada de combustível para o país vizinho que não pagou a taxa estipulada e que, além disso, tinha diversas liminares para colocar no dia com dívidas pendentes. Em agosto, o órgão obteve interdição judicial contra outras duas embarcações que também se recusaram a pagá-la.
Trata-se da barcaça MGT 05 da empresa de navegação Grupo Mercúrio que na quarta-feira foi parada pela Prefeitura no quilômetro 171 da hidrovia até que a empresa pague a conta dos pedágios vencidos. Na qualidade de concessionária estadual da Hidrovia Tronco, a AGP exige o pagamento de US$ 1.447 pela viagem da barcaça interditada e um desembolso que ultrapassa US$ 27 mil pelas dívidas de outras embarcações que a transportadora vem acumulando nos últimos alguns meses.
A nova fonte de tensão com as autoridades paraguaias se deve ao fato de a barcaça transportar uma carga de 30 milhões de litros de combustível da empresa Shell para abastecer o mercado interno do país; e ocorre menos de duas semanas depois da visita do ministro da Economia, Sergio Massa, a Assunção, onde foi tachado de “mentiroso”, e da cúpula do Comitê Intergovernamental da Hidrovia Paraguai-Paraná (CIH), realizada em Santa Cruz de la Sierra, onde Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia exigiram o levantamento da medida.
O representante da Shell no Paraguai, Luis Ortega, saiu para exigir a intervenção do governo liderado por Santiago Peña e alertou: “Estamos diante de um conflito grave para o qual é preciso encontrar uma solução”.
Enquanto isso, o Centro de Armadores Fluviais e Marítimos do Paraguai (CAFyM) solicitou às autoridades brasileiras encarregadas da presidência pro tempore do CIH a convocação urgente de uma instância arbitral entre a Argentina e os países que compõem o tratado da hidrovia para resolver o problemas gerados pela extensão unilateral do pedágio de Santa Fé à área de Confluência.
Suportes e fundações
Em janeiro, a AGP liderada pelo kirchnerista de Santa Cruz José Beni começou a cobrar dos navios e comboios de barcaças uma taxa de pedágio de US$ 1,47 por tonelada registrada líquida (TRN) para carga internacional e de igual valor, mas em pesos, para transferências de cabotagem. A medida contou com o apoio das províncias costeiras, das empresas privadas do Círculo Vermelho da Hidrovia e dos sindicatos marítimos e portuários.
As autoridades governamentais argentinas basearam a medida na necessidade de as empresas usuárias da hidrovia navegável contribuírem para o financiamento das obras de dragagem e balizamento; e na promessa de que a receita da nova portagem seria reinvestida na rota, onde circulam anualmente cerca de 20 mil barcaças com cargas regionais e internacionais de produtos agrícolas, combustíveis líquidos e minerais.
Simultaneamente à entrada em vigor da cobrança de pedágio, as companhias marítimas paraguaias – pertencentes a empresas argentinas que mudaram de bandeira devido às melhores condições fiscais e à baixa carga tributária – começaram a lançar uma forte ofensiva para evitar o pagamento. Com o passar dos meses, a manobra ganhou o apoio e apoio dos governos do Paraguai e do Brasil; até que o tema passou a fazer parte da agenda diplomática de reivindicações a serem resolvidas no CIH e nos organismos regionais de transporte do Mercosul.
Segundo os números geridos pela AGP, quase 60% das empresas que navegam no troço em conflito estão em dia e não apresentaram impugnações administrativas ou reclamações judiciais contra a cobrança da portagem. O relatório interno relativo ao período Janeiro-Julho indica que a facturação total ascendeu a cerca de 11 milhões de dólares e que o valor cobrado pelas viagens na hidrovia foi de 4 milhões de dólares. Há ainda outros 3,5 milhões de dólares que se encontram em fase administrativa de acreditação, e outro valor semelhante que não foi pago e está em vias de ser reclamado judicialmente.
Para diminuir a tensão
O ruído gerado pela paralisação da barcaça de combustível deixou em segundo plano uma movimentação que a AGP realizou na última semana com o objetivo de descomprimir o conflito e que teve aval do Ministério dos Transportes e do Itamaraty.
Para retomar as discussões em nível técnico e retirá-las da arena política, a organização portuária forçou a criação de uma nova “mesa de trabalho” com a Comissão Permanente de Transportes da Bacia do Prata (CPTCP), que reúne reúne armadores da Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Esta mesa técnica, que atuará sob a égide da Secretaria Executiva do CIH, buscará replicar o mecanismo de participação e resolução de divergências que vem operando entre aqueles que realizam seus negócios e atividades no principal traçado da hidrovia. que vai do porto de Santa Fé até a saída para o mar.
O acordo alcançado prevê a implementação de um calendário de reuniões quinzenais entre as equipas profissionais e técnicas de ambas as organizações. A primeira reunião foi marcada para 22 de setembro, em Buenos Aires, em meio a um cenário em que novas decisões judiciais poderiam ser acrescentadas contra companhias marítimas inadimplentes que se recusassem a pagar o pedágio.
Fonte: Letra P
10.9.23


